Sobre

Eu e meu irmão, 1984

 

Ganhar a bicicleta era o principal sonho daquela criança. Foram muitos os momentos de expectativa em frente a vitrine da loja.
Quanto o presente chegou, foi só alegria.
A bicicleta era moderna e tinha todos os acessórios possíveis. Capacete, bomba de ar, buzina, luzes de sinalização, amortecedores hidráulicos e principalmente, as indispensáveis rodinhas de segurança. Tudo para garantir que os momentos alegres não pudessem ser estragados por quedas e machucados.
A primeira volta que a criança deu na nova bicicleta criou um daqueles momentos mágicos, com sorrisos em todos os rostos. Sob o olhar atento dos pais, a criança pedalava e ganhava velocidade. Algumas vezes, ousava passar com a roda por cima de uma pedra, buscando novas emoções nos pequenos saltos.
Depois de alguns dias, a criança foi adquirindo uma relação íntima com a nova companheira de alegrias, se libertando dos acessórios mais pesados e se aventurando por caminhos mais sinuosos.
Porém, o único acessório que mantinha em sua bicicleta eram as rodinhas de segurança. Elas permitiam uma série de manobras emocionantes, sem que isso representasse um tombo. Os pais tentaram tirar as rodinhas, mas não tiveram sucesso, pois a criança já estava tão acostumada que não aceitava a retirada do seu “porto seguro”. Quando as rodinhas eram retiradas, a criança simplesmente abandonava a bicicleta.
Com o tempo, a criança cresceu, e seus pais, sempre preocupados em proporcionar grandes alegrias para ela, foram substituindo as rodinhas por modelos maiores e mais resistentes, afinal, as novas aventuras era muito mais desafiadoras e exigiam cada vez mais proteção.
Há alguma coisa neste comportamento que transforma esta realidade em algo estranho, mas aparentemente aceitável e natural.
Não podemos condenar a criança, afinal, todos nós gostamos de rodinhas nos protegendo, facilitando nossos caminhos e nossos desafios. Também é compreensível a atitude dos pais, que sempre irão se preocupar em proteger nossas alegrias. Eles nunca terão forças para tirarem as rodinhas.
Quem já aprendeu a andar de bicicleta sabe que somente uma decisão pessoal pode retirar as rodinhas.
Este é o desafio.
Alguns precisam assumir uma postura menos acomodada e mais proativa em relação as suas próprias escolhas, afinal as rodinhas limitam nossos movimentos, nossas possibilidades de alegrias. Outros precisam aprender a confiar no próprio talento e na força que os erros acrescentam ao crescimento pessoal, porque mesmo não andando de bicicleta, tombos e machucados acontecerão.
A única ajuda que podemos desejar é ter o apoio de alguém segurando no banco por alguns instantes antes da grande aventura.
Sentimos medo porque a mudança as obriga a sair da zona de conforto. Querendo ou não, acostumar-se com uma situação gera segurança, e nos sentimos em uma posição confortável quando estamos seguros. A incerteza com relação a determinado assunto é estimulante, mas também pode ser desesperadora para algumas pessoas.
Descobri que tudo flui mais fácil quando se tem o doce e suave sabor da esperança, o frescor da liberdade. Estou pronta para lidar com a árdua tarefa do autoconhecimento. Pronta para tirar as “rodinhas” e tatear pouco a pouco o que me faz sentir verdadeiramente completa. A felicidade eu já conheço, o que vier é mais.
Take a risk.


*Texto adaptado

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