Aperta o off*

Você enviaria cartas em vez de e-mails? Trocaria o teclado do computador pelas “pretinhas” de uma máquina de escrever? Abriria mão do uso do celular? Pois há quem não pense duas vezes. Enquanto grandes empresas de tecnologia se preocupam em desenvolver produtos direcionados a uma sociedade sedenta por novidades, ainda há quem prefira “desligar o botão” da modernidade. Aos que nadam contra a maré da tecnologia, aparelhos de última geração não substituem o prazer de preservar antigos hábitos.
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Mirian Goldenberg: "Muitos acabam gastando mais tempo com as máquinas do que com seres humanos"

Até mesmo entre os jovens, considerados experts quando o assunto é tecnologia, encontra-se quem seja adepto de práticas (quase) arcaicas. O estudante de Administração Murilo Rodrigues adora datilografar seus trabalhos em uma legítima Olivett Dora portátil, ano 1977, herança de sua mãe.

– Digitar no computador tem muitas facilidades, mas não há o charme da máquina de escrever – diz Murilo, que também não foi “fisgado” pelas vantagens oferecidas por câmeras de celulares ou máquinas digitais. Ele ainda desfruta de sua câmera analógica (Canon Prima), de 1999.

– Tanta tecnologia banaliza a arte de fotografar. Uma exposição de fotografia não causa as mesmas sensações que há dez anos – analisa.

Raoni: "O grande prazer pode ser até mesmo o estalinho do disco"

Raoni: "O grande prazer pode ser até mesmo o estalinho do disco" / Foto: Lula Aparício

Já aparelhos como IPod, MP3 e MP4 player ou, até mesmo, um simples CD-player não despertam interesse do músico e estudante de Jornalismo Raoni Sarraf (MouChoque). Amante da música, ele nunca foi fã dos CDs – “em toda minha vida, comprei, no máximo, 20” – e, desde a adolescência, coleciona vinis. Seu arsenal já ultrapassa a marca dos mil “bolachudos”. Além disso, Raoni possui três vitrolas e um gramofone, que podem rodar raridades de até 60 anos atrás.

– O grande prazer pode ser até mesmo o estalinho do disco – conta o estudante, para quem abaixar música na internet está fora de cogitação.

Alfredinho, do Bip Bip, detesta celular

Alfredinho, do Bip Bip, detesta celular

Em um país cujos dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) registram a estrondosa marca de mais de 150 milhões de celulares em uso, ainda existem pessoas que desdenham do aparelho. O comerciante Alfredo Melo, dono do famigerado bar Bip Bip, conta que, em seus 65 anos de vida, nunca foi proprietário de um celular.

– É uma loucura. Mal você atende e o sujeito já pergunta “onde você está?”. Não tenho nada contra quem usa, mas detesto ser amofinado com isso. Para ser sincero, me considero um ‘obsoleto tecnológico’, com muito prazer – diz.

Mirian Goldenberg, doutora em Antropologia Social e professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, acredita que as reações aos avanços tecnológicos fazem parte de uma sociedade que precisa sempre de novidades para se interessar por algo.

– É normal que algumas pessoas tenham certa resistência à imposição de coisas que não consideram tão necessárias, mas nem todos são assim. Eu mesmo resisti muito a ter computador, celular, máquina digital… Lógico que acabei aproveitando as vantagens destes aparelhos. No entanto, acho que existe uma verdadeira obsessão, e muitos acabam gastando mais tempo com as máquinas do que com seres humanos. Pode ser uma opção ter uma vida mais simples e, também, mais humana, sem tantas máquinas para atrapalhar – acredita.

Carta substitui e-mail

Duque Estrada: "O importante não é dominar a tecnologia, mas sim não ter medo dela"

Duque Estrada: "O importante não é dominar a tecnologia, mas sim não ter medo dela"

O último e um dos poucos e-mails enviados pelo videomaker Vicente Duque Estrada, 43 anos, continha a seguinte mensagem: “A partir de 2007, não venham me falar de coisas importantes por e-mail. De preferência, não me avisem nada pela internet. Tenho celular, que já é uma porcaria. Quem quiser falar comigo, me ligue”. Tal atitude, que pode parecer radical para alguns, tem explicação. Ele adora manter o raro hábito de escrever cartas.

– Ter a grafia em mãos é outra coisa. A letra diz se a pessoa está nervosa, calma ou ansiosa – acredita Vicente, que passou o hábito para os três filhos, dos quais dois moram na Itália e se comunicam sempre através de cartas.

A relação de Vicente com a tecnologia é, de fato, bem restrita. Ele, que realiza oficinas de vídeo em favelas do Rio, tenta passar aos alunos que informação e conhecimento são importantes, mas imaginação e criatividade nenhuma tecnologia substituirá.

– Fazemos um trabalho artesanal, no qual os próprios alunos constroem câmeras de papelão. Ali, eles aprendem a ter o olhar, discutir enquadramento, plano. Levam para casa e ainda estendem a discussão. O importante não é dominar a tecnologia, mas não ter medo dela – acredita.

*Matéria publicada na íntegra pela Jornalista Cristiane Costa (2006). Todos os direitos reservados!
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